RIGIDEZ CONTRA INOVAÇÃO: O DILEMA CRUCIAL


A disposição dos chineses para alterarem sua nota fundamental "sino amarelo" constituía engenhosa solução teórica para o problema secular da música, a saber, o da rigidez contra a inovação.

Voltaremos a falar nessa questão vital quando examinarmos a música da Índia. A pergunta é a seguinte: até que ponto se deve regular e controlar a música, e até que ponto se lhe há de conceder liberdade de expressão? Até que ponto deve ser rigidamente mantida a música predominante, e até que ponto se lhe há de permitir alterar-se?

Mudanças na música da nação podem, finalmente, revelar-se genuinamente benéficas; as inovações podem ter, com efeito, o propósito de desenvolver e aprimorar as artes tonais. Ou talvez não tenham.

Não nos é difícil compreender a imensa importância que o dilema da rigidez contra a inovação representava para qualquer cultura que aceitasse o ponto de vista de que a música possui a capacidade de transformar - aperfeiçoar ou degradar - a civilização.

Virtualmente, todas as principais civilizações da antigüidade adotavam esse ponto de vista. As mais sábias tinham, portanto, uma consciência muito maior das armadilhas de qualquer extremo na música - super-rigidez ou superinovação - e procuravam lograr um equilíbrio entre as duas.

Um grau imprudente de inovação ou uma situação de total anarquia musical poderia revelar-se mortal para o Estado. Por outro lado, contudo, a completa inflexibilidade levaria a música a estagnar-se.

Como evitar a estagnação na música e, ao mesmo tempo, navegar a salvo das rochas traiçoeiras da anarquia absoluta?

À sua própria maneira, cada uma das grandes civilizações antigas formulava sua única variação da mesma solução básica: poder-se-ia evitar a estagnação e encorajar a criatividade com segurança adotando-se um sistema musical que permitisse aos compositores ou executantes expressão livre - dentro de certas regras e regulamentos bem-definidos. A variação chinesa desta solução foi dupla.

Em primeiro lugar, permitiram-se novas composições de músicas, contanto que não fossem manisfestamente imorais ou anárquicas. Todas as novas composições deviam, etc., e, assim, harmonizar-se com o Alto.

Mas o fato de poderem surgir novas obras de música proporcionava campo à introdução de novas melodias e estados de espírito benéficos, ajudando a permitir que as artes musicais conservassem tanta fluidez que fossem capazes de caminhar a par com as novas condições astrológicas.

Os chineses acreditavam, porém, que, mesmo assim, havia margem para uma perigosa super-rigidez. Pois que aconteceria se os próprios harmônicos celestes mudassem de um modo maior e permanente e não mudasse o sistema de regras musicais?

Isso também não colocaria a música da nação num estado de perigosa inarmonia em relação ao Som Cósmico?

Vemos, pois, o extremo valor de se consentir na modificação do kung. No entender dos chineses, um kung que permanecesse absolutamente inflexível por muitos séculos poderia revelar-se, afinal de contas, mortal para uma civilização.

Isso porque um kung estático - e uma música estática - só conservariam o seu valor se o próprio universo fosse estático, e não era esse o caso.

A super-rigidez na música poderia, portanto, revelar-se tão perigosa quanto o excesso de inovação. O que não se ajustava ao novo dia estava condenado a desaparecer.

Por mais que possamos concordar com as características da antiga ciência musical chinesa ou discordar delas, a sua crença de que é essencial seguir um caminho intermediário entre as ciladas gêmeas da música, ou seja, a super-rigidez e a anarquia é, sem dúvida, um válido e oportuno lembrete para os povos de qualquer época.