O MISTICISMO DA MÚSICA NA CHINA


"A música expressa a harmonia do céu e da Terra", reza o Memorial da música. E no Registro dos ritos ficamos sabendo que, "sendo 3 o número simbólico do céu e 2 o da Terra, sons na razão de 3:2 harmonizarão o ceu e a Terra".

Para pôr em prática esse conceito, os chineses tomavam o tom fundamental, o huang chung, e com ele produziam uma segunda nota na razão de 3:2. Por exemplo, tendo construído uma corda musical que, tangida, soava a nota huang chung (ou "kung"), poderia produzir-se uma segunda nota na razão de 3:2 pressionando a corda sobre um trasto a um terço da distância da extremidade, e tangendo em seguida os dois terços restantes. (Alternativamente, poder-se-ia usar uma segunda corda que tivesse dois terços do comprimento da primeira).

Essa razão de 3:2 entre as duas alturas é denominada pelos músicos de hoje o quinto perfeito. Tomando a segunda nota e, depois, continuando ao longo de linhas similares, poder-se-ia produzir, através de certo sistema, um total de doze notas, todas relacionadas por um ciclo de quintas perfeitas ou razões de 3:2. Resultado: doze notas derivadas do sagrado huang chung; doze equivalente terrenas dos doze Tons.

Das doze notas, ou lü, como lhes chamavam os chineses, só sete foram incorporadas na escala musical atualmente usada.

Pode dizer-se que os doze lü correspondiam, mais ou menos, às doze notas da moderna escala cromática; e as sete notas chinesas mais importantes às sete notas maiores da escala atual: Dó - Ré - Mi - Fá - Sol - Lá - Si.

Raramente, porém, utilizavam os chineses os dois semitons, de modo que, na prática, só empregavam uma escala de cinco notas, ou pentatônica.

O mesmo acontecia no Egito, na Grécia e em outras civilizações antigas. Essa escala pentatônica, portanto, consistia, aproximadamente, nas notas a que hoje nos referimos como senda Fá (F), Sol (A), Dó (C) e Ré (D).


Daí, o misticismo ligado aos números 1, 2, 3, 5, 7 e 12 é mostrado na música da seguinte maneira:

1 - O Tom Uno, ou Som Cósmico, do Supremo.
2 - O T'ai chi; a primeira diferenciação do Um.
3 - A Trindade: resultado do T'ai chi.
12 - Os doze Tons do zodíaco, cujos equivalentes terrenos derivavam de uma série de razões 3:2
5 - Os cinco tons menores.
7 - Os sete tons maiores (que compreendem cinco sons inteiros e dois semitons).


No sistema filosófico da China o número cinco era particularmente importante, de modo que não admira que a sua escala musical também tivesse sido pentatônica.

Fenômenos de natureza amplamente diversa eram categorizados em divisões de cinco, de sorte que cada uma das cinco divisões estava associada a uma das cinco notas musicais. As notas dos governantes, estações, elementos, cores, direções e planetas.

É impossível deixar de notar a importância fundamental aqui atribuída a kung. Simbolicamente, relacionava-se com o chefe do Estado, o elemento terra e o centro (de preferência a qualquer outra direção da bússola).*

* Uma relação central semelhante entre uma e as outras quatro foi reconhecida pelos gnósticos cristãos com respeito às cinco feridas do Cristo crucificado: quatro feridas nas mãos e nos pés, e uma quinta no torso, da qual emanou a pulsação do Verbo, exatamente como a quinta corda da cítara chinesa emitiu o kung.

Simbolismo semelhante relacionado com o número cinco se encontra nas diversas lendas e religiões de muitas regiões do globo.