No caso da China, a regra de que o quanto mais recuamos na história tanto mais sagrada e vital é a importância que vemos atribuída ao fenômeno do próprio som, é verdadeira.
Conforme o ponto de vista dos antigos chineses, as notas de toda música continham uma essência de poder transcedente.
Um trecho de música era uma fórmula de energia. Cada trecho distinto de música qualificava o sagrado poder do som de maneiras diferentes.
Cada composição exercia influências específicas sobre o homem, a civilização e o mundo. As influências místicas particulares de uma peça musical dependiam de fatores como o ritmo, os padrões melódicos e a combinação dos instrumentos usados.
À semelhança de outras forças da natureza, a própria música, como fenômeno, não tinha predisposição para produzir efeitos benéficos ou destrutivos.
Compreendiam os chineses que o poder da música era uma energia livre, que o homem poderia usar bem ou mal, a seu talante.
Acima de tudo foi esse fato que levou os filósofos chineses a dirigirem muito da sua atenção à música do seu país. Pois, para que todos os cidadãos estivessem livres dos perigos do uso indevido da música e do seu poder, e para que a todos aproveitasse o seu uso otimamente benéfico, ugia ter-se a certeza de que só se executava a música correta.
Acreditavam eles que o objetivo da música nunca deveria ser o mero entretenimento, visto que o lado escuro da natureza do homem poderia, afinal de contas, ser tão prontamente entretido pelo lado mau e imoral da música quanto pela música correta.
Conseqüentemente, a toda música caberia transmitir verdades eternas e influir no caráter do homem visando a torná-lo melhor. Com efeito, a própria palavra usada na China para significar música (Yüo) é representada pelo mesmo símbolo gráfico empregado para designar a serenidade.
Os escritos da China antiga chegados até nós não nos deixam dúvida alguma quanto a ser a música considerada capaz de dirigir e influenciar a natureza emocional do homem.
A música poderia até afetar diretamente a saúde do corpo físico. (Cantar bem, rezar um texto, não só difunde a influência moral, mas também fortalece a espinha). Entretanto, o efeito da música reputado superior aos outros e o mais importante de todos era o seu efeito moral.
Os chineses estavam certos de que toda música vulgar e sensual exercia uma influência imoral sobre o ouvinte.
Daí que toda música fosse estreitamente vigiada de modo que se pudesse verificar se ela tendia para a espiritualidade ou para a degradação e se, de um modo geral, o seu efeito propendia para o bem ou para o mal.
Confúsio condenou diversos estilos que supunha moralmente perigosos. Afirmava ele: "A música de Cheng é lasciva e corruptora, a música de Sung é mole e efeminante, a música de Wei é repetitiva e tediosa, a música de Ch'i é dura e predispõe à arrogância."
Não podemos deixar de notar a importante diferença entre esta perspectiva de Confúcio e o ponto de vista costumeiro do século XX. Conquanto vários estilos de música também sejam hoje "lascivos", "moles", "repetitivos" ou "duros" em seu conteúdo, já não se dá nenhuma atenção verdadeira ao seu efeito sobre o caráter do ouvinte.
Do lado positivo, cria Confúcio que a boa música poderia ajudar a aprimorar o caráter do homem.
Disse ele: A música do homem de espírito nobre, suave e delicada, conserva um estado d'alma uniforme, anima e comove. Um homem assim não abriga o sofrimento nem o luto no coração; os movimentos violentos e temerários lhe são estranhos.
Mais do que isso: uma vez que os indivíduos são os materiais básicos de construção da sociedade, a música também poderia afetar nações inteiras, melhorando-as ou piorando-as.
De acordo com Confúcio: "Se alguém desejar saber se um reino é bem ou mal governado, se a sua moral é boa ou má, examine a qualidade da sua música, que lhe fornecerá a resposta".
Em virtude do poder para o bem ou para o mal inerente às artes tonais, o efeito moral da música era julgado tão importante pelos chineses que constituía o teste mais importante do seu valor.
Eis aí um pensamento para o dia de hoje para muitos músicos contemporâneos e seu público.
Segundo os chineses, eram pouquíssimos os efeitos benéficos que a boa música não poderia proporcionar a uma civilização.
Na antiga obra chinesa, Yo Ki ("Memorial da Música"), lemos: "sob o efeito da música, os cinco deveres sociais são sem mistura, os olhos e os ouvidos claros, o sangue e as energias vitais equilibradas, os hábitos reformados, os costumes aprimorados, o império respira uma paz completa".