Os imperadores chineses empregavam surpreendentemente inúmeros músicos.
A Dinastia T'ang, por exemplo (618-907d.C.), sustentava nada menos do que catorze orquestras da corte, cada uma das quais se compunha de um número que oscilava entre quinhentos e setecentos executantes.
Que diriam os eleitores de hoje de um emprego tão grandioso e "desnecessário" dos fundos públicos?
Apesar disso, segundo os antigos, manter tantos músicos estava longe de ser desnecessário ou supérfluo mas, ao contrário, era o supra-sumo da sabedoria.
Pois se acreditava que a energia invocada pelos padrões tonais divinamente afinados dessas orquestras da corte exercia uma influência de alcance incalculável em todos os negócios da nação - negócios tão cruciais e abrangentes quanto os da economia, dos padrões sociais do comportamento da agricultura e assim por diante.
Durante o império da Dinastia T'ang só uma orquestra regular chegou a ter nada menos do que 1346 músicos.
Não admira que se tratasse de uma orquestra destinada a tocar ao ar livre. Para acomodá-la no Royal Albert Hall de Londres teria sido preciso colocar os músicos nas filas das poltronas e o público, limitado, no palco! Mas esse número imenso de executantes se depreende que se sabia ser mística a verdadeira função da orquestra, um vez que tais quantidades são totalmente desnecessárias para quaisquer finalidades de execução de peças musicais que visem ao entretenimento.
Qual era, então, a verdadeira função pretendida da orquestra?
Simplesmente que, quanto maior fosse o som, bem como o número de espíritos ativamente envolvidos na sua produção, tanto maior seria a proporção de energia cósmica invocada e transmitida. Dessa maneira, ocorria um vasto transbordamento com o qual toda a região se fortalecia e iluminava espiritualmente.
Registraram os historiadores chineses que, para os solstícios e outras festividades importantes, a Dinastia T'ang também juntava uma orquestra composta, segundo se afirmava, de nada menos do que dez mil músicos. É manifesto, portanto, que estamos aqui lidando com uma visão da função da música muitíssimo diversa da que prepondera entre os ocidentais.
No caso de inúmeras salas de música modernas, dez mil executantes preencheriam três ou quatro vezes a capacidade da platéia para o público.
Em confronto com o que se passa entre nós, podemos dizer que se dava na China muito maior destaque à participação do que à audição passiva. E isso porque, à semelhança de lavradores que fazem suas colheitas ou soldados que defendem sua pátria, acreditava-se que os músicos e sua música, sem reserva alguma, funcionavam de um modo muito prático e extramusical. O som era poder; a música, energia.