NOSTRADAMUS
Conselheiro de três reis da França - Henrique II, Francisco II e Carlos IX - e homem de confiança da Rainha Catarina
de Médicis,
Michel de Nostredame, mais conhecido como Nostradamus, foi certamente uma figura excepcional.
Formou-se em medicina, mas dedicou muito de seu tempo à astrologia, à alquimia, à teologia e à literatura, chegando
a ser considerado por alguns de seus biógrafos "um dos homens mais eruditos de sua época". Mesmo assim, não é
fácil compor sua biografia: os dados e as informações disponíveis nem sempre se mostram coerentes entre si.

Nostradamus nasceu na França, mais precisamente na pequena cidade de Saint-Rémy, na Provença, por volta de 12
horas do dia 14 de dezembro de 1503, uma quinta-feira. Seu pai, Jacques de Nostredame, era o tabelião da localidade
e descendia de família um tanto modesta. Por parte da mãe, Renée de Saint-Rémy, há entretanto ascendentes mais
ilustres, tanto no campo da matemática como no da medicina.
A família, que professava o judaísmo, converteu-se à fé cristã quando Michel contava 9 anos de idade. Ainda bem
jovem, depois de aprender latim, grego, hebraico, matemática e astrologia com seu avô materno, Michel foi mandado
para Avignon para estudar a humanidade, mas logo se viu atraído pela medicina. Assim, como decorrência natural,
acabou sendo matriculado na Escola de Medicina da Universidade de Montpellier.
Em 1525, com 22 anos, Nostradamus começa sua carreira de médico, enfrentando os primeiros obstáculos. Tenta
fixar-se em Narbonne, passa por Toulouse e acaba ficando quatro anos em Bordeaux, onde combate uma epidemia
de peste em condições muito precárias. Em seguida, retorna a Montpellier para aperfeiçoar-se, tenta novamente
Toulouse e, finalmente, fixa-se em Agen, à margem do rio Garona, onde se casa e tem dois filhos (um menino e
um menina). Mas a peste não respeita ninguém, nem mesmo a família dos médicos. É assim que Nostradamus fica
sem família, só no mundo e "sem paz", como diria.
Passa algum tempo viajando pela Itália e depois volta a sua terra natal, a Provença, para descansar e recuperar-se.
Quando retorna à atividade, vai primeiro para Marselha e, depois, para Aix, capital da Provença, onde permanece três
anos a serviço da cidade. E Aix desafia-o com uma situação tão dramática como a de Bordeaux: a peste de 1546.
A parada seguinte é Salon-de-Craux, onde se casa novamente com uma viúva, Ana Gemella, e tem seis filhos (três
homens e três mulheres). O primeiro deles é César, o qual mais tarde dedicaria as primeiras Centúrias.
É nessa época que Nostradamus começa a escrever suas Centúrias e outras mensagens proféticas - mas, receoso
de incorrer em desagrado e perseguições, prefere adiar a sua publicação. Seu desejo de vê-las conhecidas, porém,
é mais forte. Manda-as então para a impressão e, em breve tempo, suas profecias se tornam famosas.
O próprio Rei Henrique II da França, perturbado pelas previsões sobre os anos imediatos - nelas Nostradamus falava
de carestia, peste, seca e de mares e terras tingindos de sangue, convida o vidente a fazer parte de seus conselheiros,
na corte. Era 1556.
Com a morte de Henrique II em 1559 (prevista na Centúria 1-35), Nostradamus continua nas mesmas funções com o
sucessor, Francisco II, e com o sucessor deste, Carlos IX. Contam os biógrafos que Carlos IX quis ir pessoalmente,
acompanhado de seus principais dignitários, para entregar ao sábio, em sua casa, o documento com o qual o nomeava
médico pessoal do rei. Dizem que, durante a visita, Nostradamus pediu para examinar as manchas no corpo de um
jovem que fazia parte de um séquilo real, e predisse que um dia ele seria rei da França.
O rapaz era Henrique de Navarra, que mais tarde veio a se tornar Henrique IV. É o momento em que a estrela de
Nostradamus brilha com mais força.
Sua fama de médico e de adivinho ultrapassa as fronteiras da França; de todos os cantos da Europa, chegam
celebridades para conversar com ele e "obter uma luz, ainda que tênue, sobre o futuro".
A saúde de Nostradamus, entretanto, não acompanha todo esse brilho. Já há alguns anos ele vinha sofrendo de
artrite e gota, enfermidades que, com o passar do tempo, dominam cada vez mais o seu organismo. Em meados
de 1566, sofre um forte ataque de hidropisia (acumulação de líquido nos tecidos) que o obriga a permanecer no leito.
No dia 1º de julho chama um criado e pedelhe para arrumar o quarto, "pois não estaria mais vivo ao alvorecer do dia
seguinte". E assim foi. Nostradamus morreu em 2 de julho de 1566, sendo sepultado de pé numa das paredes da
Igreja de Cordeliers, em Salon.
Sobre o túmulo, sua esposa mandou gravar um epitáfio, semelhante ao do historiador romano Tito Lívio.
Durante a Revolução Francesa, no entanto, o túmulo de Nostradamus foi aberto por soldados supersticiosos. Seus
restos foram então reenterrados em outra igreja de Salon, a Igreja de São Lourenço, onde permanecem até hoje.
A época de Nostradamus
Quando Nostradamus nasceu, a América estava descoberta havia onze anos, e Roma encaminhavase para o seu
período de maior brilho no Renascimento: Leonardo da Vinci estava pintando sua La Gioconda, o arquiteto italiano
Bramante iniciava a construção da Basílica de São Pedro e o famoso Michelangelo dava as primeiras pinceladas dos
afrescos da Capela Sistina, no Vaticano, por encomenda do Papa Júlio II.
Paris já era um centro de cultura e de artes: são dessa época belíssimos edifícios, como o Hotel de Sens, o Hotel de
Cluny e as igrejas de SaintMerri e de Saint Etiennedu Mont. Passam-se alguns anos, e eis Maquiavel escrevendo
O Príncipe e o poeta italiano Ludovico Ariosto, o seu Orlando furioso.
Há no ar um fermento cultural que invade todos os setores da sociedade. E é nesse clima tão rico de experiências e
de idéias que caem as primeiras sementes do que mais tarde seriam chamadas de "guerras religiosas".
Em 1517, Lutero publica as 95 teses contra a doutrina das indulgências, entrando em conflito com a igreja, razão pela
qual, quatro anos depois, é excomungado pelo Papa Leão X e, a pedido deste, banido da Alemanha pelo Imperador
Carlos V.
Dez anos depois, exatamente, as tropas imperiais saqueiam Roma.
E, em 1545, tem início o Concílio de Trento, realizado em um quadro histórico muito vivo e agitado. É a época em que
Nostradamus se encontra em Marselha, retornando a sua vida de médico da primeira esposa. Dois anos depois, em
1547, Henrique II sobe ao trono da França, enquanto na GrãBretanha, com o Rei Eduardo VI, acentuase a orientação
protestante da igreja Anglicana.
Na França, a política adotada por Henrique II reaviva as dissensões entre as grandes famílias feudais e somente a
habilidade diplomática de sua mulher, Catarina de Médicis, consegue contornar as crises.
É o tempo dos "reis meninos": com a morte de Henrique II, a coroa passa para seu primogênito Francisco II, um
adolescente doentio de 15 anos, que casara aos 13 com a Rainha Maria Stuart, da Escócia. Seu reinado, no entanto,
dura bem pouco: ele morre aos 16, deixando a coroa para o irmão Carlos IX, de apenas 9 anos, ficando o poder nas
mãos de sua mãe Catarina, como regente.
Nesse período, acentua-se na corte a influência de um grupo de nobres liderados pelo Duque Francisco de Guise, irmão
do Cardeal de Lorena, e pela poderosa família dos Montmorency, idealizadores da política de repressão religiosa e
defensores de uma contraofensiva católica.
Outro grupo forte, na corte, era formado pelos nobres que haviam aderido à reforma por motivos políticos, e por isso
eram chamados de "Huguenotes de Estado". Catarina de Médicis esforçouse muito em realizar uma política de
conciliação entre as duas facções, mas as pessoas ainda não estavam maduras.
Em 1560, alguns nobres "reformados" tentaram raptar o Rei Carlos IX para subtraílo à influência da família de Guise. A
tentativa, conhecida como Conjuração de Amboise, resultou numa sangrenta repressão aos inimigos de Guise.
Passaramse dois anos, e a insistência de Catarina de Médicis em conseguir a conciliação obtém alguns resultados
positivos: ela sentese suficientemente forte para promulgar um edito que permite a "liberdade de culto fora das
cidades cercadas de muros". A medida parece agradar a todos, mas não satisfaz os seguidores da família de Guise,
que provocam novos incidentes.
O mais grave ocorre em março de 1562, quando o Duque de Guise, à testa de seus homens, ataca um grupo de
calvinistas que realizavam seu culto em Vassy. O massacre é aprovado com entusiasmo pela população parisiense.
Sentindo-se ameaçados, os calvinistas pedem ajuda à GrãBretanha. É a guerra entre os dois países. E a violência
espalhase rapidamente. Incansável, Catarina de Médicis insiste em sua ação mediadora e consegue a deposição
das armas com o edito de Amboise (19 de março de 1563).
Esse rápido resumo histórico mostra como foram cheios de acontecimentos preocupantes os anos em que viveu
Nostradamus. E nesse clima de incerteza e de medo, pode-se entender com que interesse eram recebidas as suas
premonições, tanto na corte como junto ao próprio povo. Mesmo nos momentos de maior confusão, Nostradamus
sempre repetia: "É a violência que respeitará os últimos anos de minha vida".
Foi exato na sua previsão, pois quando a guerra recomeçou, no outono de 1568, Nostradamus já repousava em paz,
havia dois anos, na Igreja dos Cordeliers. Prólogo às Profecias As Centúrias de Nostradamus foram escritas em
linguagem bastante hermética.
Ele conhecia com perfeição as línguas clássicas e também o romance (língua vulgar, derivada do latim, falada em certos
países após o declínio de Roma).
Nostradamus utilizou esses conhecimentos para apresentar suas mensagens proféticas de forma acessível a poucas
pessoas. Não bastasse isso, ainda lançava mão de alguns truques como a inversão de letras, sua substituição por
outras, anagramas e alcunhas, aumentando as dificuldades a serem vencidas pelos estudiosos de sua obra.
O vidente escreve Rapis em vez de Paris, Nercaf por France. Eiovas por Savoie, Arge por Alger, Loin por Lyon e assim
por diante.
Para entender melhor os textos é necesário ainda considerar a época em que viveu Nostradamus, muito difícil por
causa das lutas religiosas entre católicos e huguenotes.
Uma mensagem ainda que exposta claramente, mas mal interpretada por uma das facções, poderia provocar um
aumento da violência e acarretar perseguições ao seu autor.
A primeira edição de Les Prophéties de M. Michel Nostradamus de M. Michel Nostradamus veio à luz em Lyon no de
1555. Três anos depois saiu uma segunda edição, impressa por Pierre Rigaud, e em 1568 (dois anos após sua morte)
Benoist Rigaud publicou uma edição completa. No total, as Centúrias são doze, três delas estão incompletas, as de
número 7, 11 e 12.
A elas devem ser acrescentados os Presságios (155067) e as outras profecias, encontrados parte em cartas enviadas
aos reis e a outras personalidades com as quais Nostradamus tinha contado.